domingo, 19 de maio de 2013

Um passeio no centro – o positivismo através do patrimônio erguido no Centro Histórico de Porto Alegre


Considero que um dos principais elementos do ensino é a vivência, a comprovação e o empírico. Em História podemos trabalhar esses pontos a partir a partir de várias “fontes documentais”. Se tudo aquilo produzido por sociedades humanas do passado pode contar as suas Histórias, então o que foi construído pelos homens também pode nos revelar o passado.
A partir disso, temos a noção de patrimônio histórico. A ideia de patrimônio histórico vem da Revolução Francesa e da necessidade de se construir uma nação. Era necessária fazer a nova pátria francesa, que deveria ter símbolos que a identificassem, sejam eles uma bandeira tricolor, ou a catedral de Notre-Dame. O patrimônio histórico faz parte da nossa memória nacional e local. Afinal, ao que nos remete a Casa Branca, a Torre Eiffel, o Big Ben, ou o Coliseu?
Um simples passeio pelo centro de Porto Alegre pode
contar muito de sua História

E em geral a maior parte desse patrimônio edificado pelo homem encontra-se nos meios urbanos. E não é por acaso. Afinal, a História da Humanidade é marcada por essa transição do rural para o urbano.
E é o centro a parte mais relevante e reveladora de uma cidade. O centro é o coração pulsante, por onde passam milhares de pessoas de vários lugares diferentes. Ali existe a vida humana.
Em Porto Alegre, o centro não é geográfico, ou geométrico, mas histórico. A cidade começou a partir do centro, mas ele não é exatamente no meio dela. Ocorre que apesar de Porto Alegre ter mais de 240 anos, a maior parte do patrimônio histórico data do início do século XX, quando a cidade e o Rio Grande do Sul viviam sob forte influência do positivismo.
O positivismo foi uma doutrina filosófica e social criada pelo francês Augusto Comte em meados do século XIX. Defendia um poder executivo forte, capaz de manter a ordem, para que fosse possível alcançar o progresso. Para tanto, seria importante uma harmonia da sociedade, evitando conflitos entre os grupos sociais. Parece evidente que esta “ideologia” estava ligada a uma elite conservadora, tanto é que um dos lemas do positivismo era “conservar melhorando”, ou seja, trazer o progresso para a sociedade, mas sem alterações sociais.
Comte compreendia a sociedade como um organismo vivo e sua História como uma evolução, cujo ponto máximo seria o Estado Positivo, sob o comando de uma ditadura na forma de República.
O positivismo foi implantado na política rio-grandense por Julio de Castilhos entre 1891 e 1893 com continuidade no governo Borges de Medeiros nos anos de 1898 até 1928. Em Porto Alegre, refletiu-se na administração do intendente (ou prefeito) José Montaury, membro do Partido Republicano Riograndense (PRR), apoiado por Julio de Castilhos e Borges de Medeiros. Montaury era engenheiro e também era positivista, o que se refletiu numa reestruturação do centro da cidade.
Montaury investiu num “embelezamento da cidade”, no padrão estético. Ainda que cauteloso dado o pouco dinheiro disponível, em seu governo foram construídos grandes obras municipais como a Prefeitura (1901), a Biblioteca Pública (1912-1916), a Delegacia Fiscal e o Prédio de Correios e Telégrafos (1913-1914), além de prédios estaduais como o Palácio Piratini e o Arquivo Público do Estado. Para tanto foram contratados engenheiros e arquitetos como os de origem alemã Rudolf Ahrons e Theo Wiedersphan.
Tudo isso, sempre pensado no progresso da capital sul-rio-grandense. Cabe destacar que no início do século XX, Porto Alegre era uma cidade suja, com muitos becos e ruelas. A maioria dos habitantes era composta de pobres e marginalizados. As lideranças viam a necessidade de “varrer” esses cidadãos do centro da cidade, abrindo praças e largas avenidas. Esse processo havia sido em Paris pelo prefeito Hausmann e no Rio de Janeiro, por Pereira Passos, conforme já falei aqui: http://historiaeavida.blogspot.com.br/2012/02/o-bota-abaixo-e-revolta-da-vacina.html. Claro que em Porto Alegre essa prática teve influência do positivismo, afinal, não era interessante para a elite local que a população de “baixo nível” circulasse pelo centro. Para que houvesse progresso, deveria haver ordem, o que, sob o ponto de visto dessa elite, com essas classes subalternas não seria possível.
Um passeio no centro de Porto Alegre pode nos trazer muitas informações sobre a sua história. Assim como em muitas outras cidades. Cada uma tem as suas particularidades históricas, mas quase todas partiram do centro.
Algumas sugestões de lugares para serem visitados, que são ótimas opções para os estudantes conhecerem mais sobre o assunto. É importante que a visita seja guiada e que se elabore um roteiro, caso contrário perderá o sentido. É importante despertar neles o interesse para o significado do que existe no lugar onde eles vivem.
Palácio Piratini, sede do poder executivo no RS:
grande e imponente.
Palácio Piratini – Construído entre 1910 e 1921, a mando de Borges de Medeiros, é a sede administrativa do governador do Rio Grande do Sul. Como o poder Executivo deveria ser hipertrofiado segundo a concepção positivista, o Palácio Piratini é grandioso e imponente. O Salão Principal (Negrinho do Pastoreio) e o hall de entrada possuem o pé direito extremamente alto. Lá dentro nos sentimos como que insignificantes diante do poder, o que era exatamente o objetivo daqueles que o construíram.
Praça Marechal Deodoro, ou Praça da Matriz – é a praça dos três poderes de Porto Alegre, com a sede do Executivo, Legislativo (Assembleia Legislativa) e Judiciário. Ainda tem ao seu redor o Theatro São Pedro, a Catedral Metropolitana e a Biblioteca Municipal. As ruas em volta seguem um esquadrinhamento percebido em muitas cidades coloniais espanholas, com uma praça ao centro, que possui a igreja principal e a sede dos poderes locais. No meio da praça está o Monumento a Julio de Castilhos.
Monumento a Julio de Castilhos – Julio de Castilhos foi o primeiro governador do Rio
Monumento a Julio de Castilhos no
meio da Praça da Matriz, um símbolo
do positivismo
Grande do Sul durante a República, com suas ideias políticas totalmente baseadas no positivismo de Augusto Comte. Um monumento em sua homenagem deveria estar permeado de significados ligados a esta ideia e foi pensado pouco após sua morte no início do século XX.
Em destaque, está o próprio Julio de Castilhos, sentado imponente. Sobre Julio está a figura feminina da República, triunfante. Em frente, guarnecendo a estátua, dois cães, afinal o leão é o símbolo da monarquia, que deveria ser derrotada. A monarquia, aliás, aparece na forma do dragão, rastejando diante de Julio, por ser o símbolo da família real brasileira, Orleans e Bragança. Em uma lateral, aparece novamente Julio de Castilhos, mas envelhecido. Na face sul, um gaúcho montado a cavalo, homenageando o típico representante da terra. Sobre ele, um importante lema positivista “conservar melhorando”.
Biblioteca Pública de Porto Alegre
Biblioteca Pública – lamentavelmente o prédio ainda se encontra em restauro. Mas o lado de fora, a sua fachada representa importantes figuras da história da humanidade, como Júlio César, o que era bastante caro aos positivistas.

Memorial do RS e MARGS – Feitos para serem sede do Correios e Telégrafos e da Delegacia Fiscal, são os melhores exemplos de obras da dupla formada pelo engenheiro civil Rudolf Ahrons e pelo arquiteto Theo Wiedersphan. Construídos entre 1910 e 1913, eram o cartão de visita para quem chegasse na cidade por via do cais do porto. Se o Rio Grande do Sul visava o progresso, então a entrada para sua capital deveria refletir isso. Ainda que a
Imagem de Porto Alegre, foto aérea
da Praça da Alfândega, com o prédio
da Delegacia Fiscal à esquerda e o
prédio de Correios e Telégrafos à direita,
atuais MARGS e Memorial do RS.
arquitetura dos prédios não fosse um reflexo da ideologia positivista, devido ao estilo decorativo, era interessante que o Estado fosse representado nos seus prédios pelo que de novo ou mais contemporâneo havia na arquitetura da época.
Na base do patrimônio histórico está a identidade local construída. Claro que esta identidade é construída por alguns grupos que defendem seus próprios interesses e claro que este patrimônio tornou-se coletivo pertence hoje a todos nós. Os prédios positivistas do centro de Porto Alegre pertencem a nós, porque contam uma importante fase da História do Rio Grande do Sul, da consolidação desse estado. Levar os alunos até estes locais pode ser um bom meio de discutir essa consolidação.
Bibliografia:
PESAVENTO, Sandra Jatahy. “Espaço, sociedade e cultura: o cotidiano da cidade de Porto Alegre”. in: GOLIN, Tau. História geral do Rio Grande do Sul: República Velha, 1889-1930. Meritos Editora, 2007.
MONTEIRO, Charles. “Urbanização e modernidade em Porto Alegre”. in: GOLIN, Tau. História geral do Rio Grande do Sul: República Velha, 1889-1930. Meritos Editora, 2007.
KÜHN, Fábio. Breve história do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Leitura XXI, 2004.
DOBERSTEIN, Arnoldo Walter. In Cadernos de História do Memorial e Banrisul: A Porto Alegre Positivista. Porto Alegre: Memorial do Rio Grande do Sul, edição online. (Disponível para download).

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